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[Você pode ler esse texto ao som de It’s Not Too Late – Demi Lovato]

“Se algo de bom acontecer, faça uma viagem para comemorar.

  Se algo de ruim acontecer, faça uma viagem para esquecer.

  Se nada acontecer, faça uma viagem para que algo aconteça.”

Em meu tempo de viajante, durante uns dias que fiquei sem internet, pensei muito nisto: O que é viajar?; Por que viajar?; Por que me sinto diferente dos turistas com a câmera no pescoço fazendo excursão (porque também tenho a câmera no pescoço e estou na mesma excursão e pra falar a verdade não tenho nenhum pudor de fazer um tanto de turismo quando alcança o dinheiro)?

Ora, viajar tira o chão da nossa segurança imaginária, da ilusão da estabilidade.

É a vida aos gritos.

É, convenhamos, um exagero.

Vê: não digo que viajar seja melhor do que não-viajar, o que conto são as minhas conclusões, que é o que eu posso contar, afinal.

Porque concluí que não quero viajar pra ver lugares, pra conhecer gente, pra acumular paisagens e fotografias. Claro que continuarei fazendo tudo isso, até porque que ótimo ver lugares e conhecer gente, mas, antes de tudo, quero viajar pra estar.

Porque pode-se estar em um lugar ou em outro, o mundo é enorme, há lugares lindos por todo lado; há gente interessante pra se descobrir em qualquer cidade: todos os lugares são lugares.

Me lembro de estar sentada no topo de algum morro olhando a vista com o vento na cara e alguma companhia dessas que a gente vai encontrando pelo caminho e com dois dias de convivência parece amizade de dez anos e me lembro de sentir que nada precisava mudar, e que bom estar ali, não querer mudar nada, não querer que o tempo passe mais devagar ou mais rápido.

Estar, e só isso.

E nessa tranquilidade pensar talvez o quanto é incrível a sucessão de momentos, um atrás do outro, sem parar.

Porque sim: lugares e conhecer, mas de que me serve tudo isso se não posso estar nos lugares? e se não estou nos lugares, no momento, estou… onde? Mais ainda porque enquanto viajava não tinha data pra voltar, porque afinal também na vida não existe data de retorno. A vida é tipo uma viagem só de ida (desculpa o clichê, ele escapou de meus dedos e se enroscou no texto).

Nos resta estar presente no único momento em que podemos estar presente;

em qualquer lugar.

Por isso viajar como hipérbole da vida: viajar escancara o que no dia a dia da não-viagem a gente tende a deixar passar pela sutileza da apresentação.

que não estamos seguros;
que não estamos sozinhos;
que somos todos iguais;
que o que vale é o presente;
que todos os dias são diferentes.

e principalmente esse último item: todos os dias são dias, todos os momentos são momentos.

Pelo exagero: viajar é mudar de cenário com frequência, buscar hospedagem, conhecer gente, confiar em desconhecidos. Mas a verdade é que também na vida da não-viagem os dias não se repetem nunca, e talvez faça mais sentido viver a rotina com os olhos abertos de quem empreende uma viagem: acreditando que sempre se enfrenta um novo dia, um novo momento.

Também porque viajar é encontrar o desconhecido (em menor ou maior grau) e aprender que somos todos iguais apesar das diferenças. saber-se um estranho tanto quanto pensamos o outro como estranho. pensar que talvez “estranho sou eu”.

Nesse sentimento da estranheza somos todos humanos.

Numa conversa com um amigo argentino, quando estava no interior do Uruguai, comentei que não sabia se seria capaz de viver com a indefinição, com nunca saber o que vai ser o mês que vem, com a insegurança de não ter algo fixo em que me apoiar, que talvez devesse me estabilizar, ter uma casa etc. Ele me disse que mesmo na rotina da cidade e do emprego fixo o que temos é só uma ilusão de estabilidade; no mês seguinte pode faltar o emprego, a casa, um amigo. Podemos ser obrigados a recomeçar.

Viajar só explicita a verdade que na vida da não-viagem a gente se recusa a ver.

Tudo isso porque lendo “The Tao of Travel”, do Paul Theroux, no capítulo sobre ficar em casa (um capítulo sobre não viajar num livro sobre livros de viagem) topei com a declaração de um monge budista que abriu mão de tudo e não saía de casa:

“Desde que eu abandonei esse mundo e rompi todos os laços, eu não senti medo e ressentimento. Eu me comprometi minha vida com o destino sem desejos especiais de vida ou desejo de morrer. Como uma nuvem flutuando, eu não tenho ligação e nem dependo de ninguém. Meu único luxo é um sono profundo e tudo que eu vejo a frente é a beleza das mudanças de estações.”

E pensei claro, óbvio: viajar pra preencher um vazio de lugares a serem vistos não faz o menor sentido, viajar pra acumular fotos e lembranças não faz o menor sentido. Claro que se pode fazer isso e claro que eu gosto de tirar mil fotos e costurar as bandeirinhas dos países que visitei na minha mochila, mas essa pode ser a razão para se viajar.

A única razão possível pra viajar deveria ser a mesma que nos faz acordar e ir trabalhar: viver o dia.

Porque viajar pode ser lindo, e fica mais lindo ainda quando a gente aceita os acontecimentos e se adapta a eles e segue adiante. Os viajantes que estão sempre insatisfeitos (com a qualidade da cama, com o tamanho do pão no café da manhã, com o atraso do guia, com o atraso do ônibus, com a poeira da estrada) não estão vivendo porra nenhuma. A viagem vai ser boa, talvez, no momento em que estiverem em casa mostrando as fotos pros amigos.

A questão é que viajar pode ser lindo tanto quando ficar em casa pode ser lindo.

O importante seria aprender a ESTAR.

E por tudo isso este se tornou meu objetivo de viagem: ESTAR.

Devo dizer que desde que me dei conta disso até a mochila ficou um pouco mais leve.

Texto por: Olívia Maia

Na coluna Feelings traremos toda sexta-feita um novo texto para vocês, e se você quer participar basta nos mandar um texto feito por você para o email meutexto@colorindovidas.com com seu nome, idade e cidade. Quem sabe seu texto não aparece aqui para colorir a vida de mais pessoas. 😉

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